Strictu sensu, segundo alguns pesquisadores e
historiadores - dentre eles David Ernst em seu livro “The Evolution of
Electronic Music”, e Paul Griffiths em “A Guide to Electronic Music” -, a
música eletrônica surge em meados do século XX, com o advento da musique concrète e da elektronische musik;
lato sensu, segundo, também, alguns pesquisadores e historiadores, há 120 anos
(neste último caso, o sítio http://120years.net/ aponta para esta perspectiva,
basicamente, sobretudo pelo fato de relacionar o surgimento da música
eletrônica às pesquisas acerca da eletricidade e da criação de aparelhos eletro-eletrônicos
ao longo dos séculos XIX e XX). David Ernst lista, a partir da página xxxvii da
obra supra-citada, uma trajetória cronológica dos eventos pré-1948 reladionados
à música eletrônica, identificando como o primeiro desses eventos a “Odisséia”,
de Homero (Grécia Antiga). O autor destaca a definição de “música natural”, entoada
pelas sereias e mencionada pelo autor grego, e definida como tal por Regino de
Prüm, teórico da música do século X. Na mitologia grega, as “Sirenas” (singular
grego: Σειρήν Seirēn; plural grego: Σειρῆνες Seirēnes) eram criaturas perigosas, que atraíam
marinheiros próximos com sua música e vozes encantadoras para naufragar na
costa rochosa de sua ilha. Por se considerar historicamente a Grécia como o
berço da cultura ocidental, e ao estabelecer em sua lista a obra de Homero como
o primeiro evento relacionado ao surgimento da música eletrônica, David Ernst assim
se justifica: “Like others artistic developments electronic music has resulted
from a number of transformation within diferent areas of a single tradition. Music Theory,
composition na instrument desig stem from mathematical and physical laws, beginning
with ancient Grece, and they can be traced throughout the history of Western
music.” ("Como em outros desenvolvimentos
artísticos, a música eletrônica resultou de uma série de transformações em
diferentes áreas de uma única tradição. Teoria da música, composição,
construção de instrumentos fundamentam-se em leis matemáticas e físicas, começando
pela antiga Grécia, e podem ser identificadas ao longo da história da música
ocidental").
Esta última afirmação de Ernst, no meu
entender, é extremamente significativa, pois não sectariza os temas
relacionados ao surgimento da música eletrônica entre teoria e prática: o
gênero musical “música eletrônica” inclui tanto contribuições teóricas
(racionais, no sentido do pensamento abstrato cartesiano), quanto contribuições
empíricas e experimentais. Ambos se fundamentam, segundo o autor, “em leis
matemáticas e físicas”, ou seja, em um pensamento abstrato, matemático, e à
matemática aplicada (à Física). (NOTA: A mestranda Lícia de Souza Leão Maia –
UFPEE, em sua monografia “Matemática concreta x matemática abstrata: mito ou
realidade?”
(http://www.ufrrj.br/emanped/paginas/conteudo_producoes/docs_23/matematica_concreta.pdf),
inicia seu texto com a seguinte sentença ao indagar sobre a “natureza” da
ciência matemática: “A questão que propomos discutir neste trabalho é a relação
entre duas dimensões da matemática: a abstrata e a concreta. Na realidade,
gostaríamos de partir do próprio questionamento sobre a existência de dois
tipos de matemática. Será que há sentido em falar em uma matemática concreta
quando, na sua essência, a ciência matemática é um construto mental, no sentido
dado por Piaget à Ação do Homem sobre o mundo?”.

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