sábado, 14 de outubro de 2017

A Utopia do(s) Sentidos(s)

II Encontro de-Composição Sonora de Juiz de Fora
(Ocorrido dia 17.09.2014, Liberdade Livraria, MG, Brasil)
A Utopia do(s) Sentidos(s)
Paulo Motta, set. 2014




O termo “música experimental” provavelmente não mais agregue o sentido de um gênero musical específico (ou talvez jamais o tenha feito...). Em recente entrevista, a compositora Jocy de Oliveira afirma o seguinte, ao se questionar se “a música experimental ainda existe?”: “Creio que não. O que existe é um somatório de pesquisas musicais, muitas quase anônimas, que refletirão nossos dias e o artista de hoje, como a última utopia da criação.”
No entanto, se a “música experimental”, de fato, não mais existe, permanece a possibilidade de que ela “aconteça” fugazmente no que poderíamos denominar como “experimentação sonora”, na qual a própria inteligibilidade dos sons – se constatamos e/admitimos que esta inteligibilidade é intrínseca aos próprios sons em suas unidades físico-acústicas mínimas (sejam elas acústicas ou eletrônicas) – “apareça”, seja perceptível, no momento mesmo em que são produzidos. Mas, neste caso, a percepção desta “inteligibilidade sonora” solicitaria do ouvinte um “ouvir ativo”, “[sugerindo] a circunscrição da escuta dentro de certos limites razoavelmente amplos nos quais o ouvinte atua. [Ou seja], a estrutura da obra não determina (no sentido de causalidade) como é executada a música. Tão pouco determina e muito menos se identifica com o[s] sentido[s] da música. É o contrário! É o ouvinte quem, buscando compreender a obra, intentando dar sentido ao que escuta, determina quais são as unidades mínimas para que possa fazê-la inteligível segundo certos atos de escuta. Tecnicamente falando, as unidades mínimas são constructos mentais ad hoc, realizados para cada experiência musical específica.” (Edson Zampronha)
Mas se os sons possuem, eles mesmos, suas unidades físico-acústicas mínimas (como os harmônicos, por exemplo), como o ouvinte determinaria, na escuta, quais seriam as unidades mínimas para que, eventualmente, operasse uma escuta ativa visando à construção de sentido(s) e significado(s)?
Não obstante a aproximação perceptiva entre a inteligibilidade intrínseca do fato sonoro – do som como matéria sonora – e da inteligibilidade das unidades mínimas como constructos mentais se efetivarem preponderantemente na percepção estética “segundo certos hábitos de escuta”, uma construção de sentido(s) e significado(s) relativamente singular e existencialmente autônoma seria possível pela intencionalidade da escuta – a escuta ativa, propriamente dita: ao considerar perceptiva e existencialmente o som como um fenômeno transiente (que “acontece enquanto dura”), o ouvinte reconheceria, na temporalidade dinâmica de uma performance, o seu próprio momento existencial, único e intransferível, porém identificável no fluxo temporal das sonoridades percebidas: a experiência estética operando, a cada escuta, a reelaboração de sentidos e significados musicais e existenciais.
Os protagonistas da série de eventos sonoros que integram os Encontros... colocam a si mesmos e aos ouvintes o desafio da experienciação do paradoxismo complementar entre o sensível e o inteligível, entre a matéria sonora e seus possíveis significados musicais, entre existência e tempo... Como possibilidade da construção permanentemente re-elaborada dos sentidos musicais (e, ambiciosamente, também dos existenciais...), a partir de uma escuta ativo-intencional – mesmo que esta escuta esteja circunstancialmente impregnada de anterioridades auditivas e existenciais: utopia perceptiva do fato sonoro em seu “instante eficiente”.
– Em que sentido(s) a música experimental talvez ainda exista?
– Em todos os sentidos! (audição, visão, tato, paladar, olfato...)

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